A filósofa do amor

O caso da influenciadora e coach de vida Mayra Cardi repercutiu nos últimos dias como um manifesto em prol do perdão e do consequente “amor-próprio”. Seria bonito e, até poético, se não fosse algo essencialmente apelativo; mais ainda, algo que beira um filme de comédia com personagens nada engraçados.

O assuntou trouxe à tona um viés sobre a traição em uma relação monogâmica com seu consequente perdão. Em um tempo em que a sociedade discute a própria monogamia em si, não é algo impensável expandir o olhar para uma visão mais inclusiva no que tange os desejos do parceiro ou parceira.

O problema disso tudo não é, portanto, o possível perdão ao marido da famosa nem sua justificativa para concedê-lo. Não há problema em fazer o que tem vontade, ainda que seja mudando de opinião a cada seis meses; não somos máquinas, somos seres humanos e nossas emoções muitas vezes tomam o protagonismo das nossas ações.

Então, qual seria o real problema desse perdão?

O tema que comoveu meio mundo de internautas influenciados e influenciáveis não foi o perdão em si (ou apenas ele), mas sim o manifesto público de que tudo que a coach de vida havia afirmado no momento de sua dolorosa separação foi por água abaixo, juntamente com suas lágrimas derramadas na ocasião.

Esse é o grande fiasco da mulher que ganha a vida orientando as ações de pessoas, essa mulher mudou a sua orientação. Repito: ela mudou sua orientação do que as mulheres deveriam fazer quando traídas repetidas vezes por seus parceiros. Ela incitou as mulheres a terem amor-próprio e viverem longe dos homens que não lhes entregavam respeito em suas relações monogâmicas compactuadas; ela sofreu na pele e usou seu próprio exemplo para deixar claro o que é amor-próprio e como obtê-lo à luz do seu sofrimento na época. Ela fez um discurso e angariou seguidoras que vislumbram um final feliz para seus dilemas internos relacionados à autoestima e orgulho. E agora, ela mudou essa diretriz como uma mulher que resolve mudar a cor dos cabelos ou o emprego.

O que a influencer não sabe é que ser influenciadora demanda responsabilidade, afinal, influenciar pessoas é mexer com os sentimentos e percepções dos que lhe seguem. Afirmar que uma atitude de não perdoar uma traição é um ato de amor-próprio e depois mudar de ideia e desdizer o que disse para justificar sua própria carência emocional é uma falta de respeito com seus influenciados e, na minha opinião, algo até imoral…

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