A Redoma do Vírus

Outro dia me perguntaram virtualmente, como eu estava tratando a questão da pandemia com os meus filhos. Respondi imediatamente: “da forma mais dura e alarmista que consigo”. Não tardou para que eu recebesse os conselhos, também virtuais, para moderar sobre a quantidade de carga emocional que meus filhos poderiam ou conseguiriam absorver. E é claro, fui questionada sobre a legitimidade do meu ato, uma vez que meus filhos são crianças e não adultos prontos para uma “guerra”.

Expliquei que as minhas ações eram realmente duras diante do caos que nos encontramos; não obstante, nunca deixei de me preocupar com a sua saúde mental e o que estavam conseguindo realmente absorver neste nevoeiro de emoções, cuja realidade mais parece um filme futurista sobre o colapso da humanidade. E sim, é exatamente sobre isso que estamos falando: “o colapso da humanidade”.

Colocar meus filhos em uma posição confortável em meio ao pânico em que a sociedade inteira vive, não os ajudará em absolutamente nada; ao contrário, os fará mais fracos diante da inevitável dor que é crescer neste planeta cercado por pessoas que ignoram a consequência dos seus atos em prol da degustação de um prazer incessável…

Por esta razão, resolvi aproveitar a oportunidade de uma guerra de verdade, uma em que somos obrigados a nos esconder em nossos “bunkers”, para fugir de um vírus mortal que assola o mundo inteiro e que, se o pegarmos poderá nos matar pela improvável possibilidade de nos tratarmos em qualquer hospital, para ensinar a meus filhos uma das verdades inexoráveis da vida: que precisamos nos planejar para viver o amanhã com saúde, conforto e proteção. Sem planejamento não conseguiremos “chegar lá”.

Para isso, acrescentei algumas novas rotinas na ajuda domiciliar que já exerciam, como  limpar os banheiros e fazer faxina no quarto; as tarefas mais básicas, como arrumar suas próprias camas, jogar a comida fora e lavar a louça, eles já faziam, então não “doeu” tanto assim…

Escolhi momentos silenciosos para questionar sobre seus sentimentos, aqueles que estão lá, escondidos no meio de tanta confusão mental, mas que precisam sair um pouquinho para respirar, ainda que seja nos corredores curtos do nosso aconchegante apartamento. Questionei-os sobre seus medos e inseguranças. Quis saber de onde vinham suas angústias mais ácidas e enxerguei lampejos de lágrimas em meio à risadas fortuitas que só uma criança sabe dar, quando se encontra imersa no meio de um deserto de atividades…

Fiz com que aprendessem a racionar a comida, que sempre foi tão abundante na nossa casa, mas que, em algum momento próximo poderia vir a faltar. Expliquei a diferença entre os produtos não-perecíveis, os perecíveis e os “super-perecíveis”. Estabeleci estratégias de consumo e de divisão. Organizei sua alimentação para que nada, absolutamente nada faltasse para eles. Mas expliquei que, mesmo com todos os cuidados que eu o o pai deles estávamos tomando, muita coisa poderia faltar.

Joguei a dura realidade que é “sobreviver” no colo de quem nunca teve que se preocupar nem em tampar a pasta de dentes que por vezes ficou aberta, endurecendo em cima da pia do banheiro deles.

Não os poupei de assistirem ao noticiário e verem os governantes do planeta sem saber ao certo que medidas deveriam tomar, pedindo por respeito em um mundo essencialmente egoísta para entender a sutileza desta palavra tão importante; não os poupei de respirarem o ar contaminado com a nossa amargura pelos fatos que não podemos controlar e, por fim,  não os poupei de compartilharem a nossa preocupação por não sabermos como será a evolução do comportamento, não do vírus, mas do ser humano frente a esta calamidade.

E, diante de todo pessimismo aparente, consigo fazê-los encontrar esperança no passado, quando cito os vários parentes que enfrentaram outras guerras, os que passaram fome, os que fugiram de nazistas, os que foram massacrados por misérias, pestes e avalanches, os que foram vítimas de balas perdidas e achadas, os que foram machucados pela sua opção sexual e os que se machucaram por não conseguirem mais viver neste mundo em que habitamos, sem saber ao certo qual é a nossa missão aqui.

E com as histórias tristes que angariamos do passado e com a realidade assustadora do presente, talvez, só talvez, consigamos nos planejar para termos um futuro melhor.

E se precisarem de ajuda no futuro, podem contar com meus filhos. Eles estarão vivos e preparados.

By Cris Coelho

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